| Miss Angola |
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Maria Celmira Bauleth (Riquita).
Moçamedes, ganhou o
concurso de Miss Portugal, o que foi motivo de orgulho para
os angolanos.
No dia em que Maria Celmira Bauleth (Riquita)aterrou em Luanda foi feriado. Um feriado decretado espontaneamente pelo simples fato de ela, uma moça de 18 anos, estar a regressar a casa, vinda da capital do então Império com a coroa e o ceptro de Miss Portugal 1971. Um feito glorioso. «Eu tive o privilégio de ser amada pelo povo de Angola. Poucas pessoas têm uma sorte semelhante. Sou muito rica por isso», recapitula Riquita, o nome por que é conhecida a mulher alta e magra cujos lábios tremelicam ao recordar esses dias em que foi recebida como uma santa padroeira, mais do que como uma rainha de beleza. Pela fluência com que Riquita conta a sua história, sentada numa sala da Taxi Models, a agência de manequins onde é «booker» desde há um ano, percebe-se que a experiência de ter sido Miss a marcou mais profundamente, do que provavelmente a qualquer outra eleita ao longo dos anos.
Riquita com os Mucubais Mesmo à distância destes 30 anos, não é difícil perceber a importância do título. É a história da menina de província - tanto mais de uma província ultramarina, como o regime chamava, então, aos territórios africanos - que chega ao palácio real e é a mais bela do baile. Não que Riquita fosse uma provinciana. A mulher desenvolta que é hoje já era uma rapariga com um gosto que na altura não deixava de ser sofisticado: «hot pants» (uns calçõezinhos muito curtos que se vestiam sobre collants de nylon) e óculos Dior de enormes armações faziam parte da sua indumentária, bem como as madeixas brancas no longo cabelo. A rapariga de Moçâmedes gostava de se produzir: usava «hotpants», óculos Dior de enormes armações e madeixas brancas nos longos cabelos
No dia do concurso Riquita nem prestara atenção aos ensaios e à marcação de palco que a Miss do ano anterior, Ana Maria Lucas, estava a ensinar às candidatas. «Durante todo o dia o diretor do espetáculo passava por mim jogava as mãos aos bolsos e dizia 'apanha!' e atirava-me telegramas às centenas. Acho que recebi uns 10 mil. Passei o dia a um canto a ler mensagens e a chorar e ignorei um bocado os ensaios. Eram telegramas de pessoas de toda a Angola que diziam 'amamos-te', 'vais ganhar'», recorda. Mas o mais impressionante foi o exemplar de Welwichia mirabilis, uma planta carnívora vinda do deserto de Moçâmedes, que chegou ao Cassino Estoril numa enorme caixa de madeira forrada a veludo e endereçada à representante de Angola. Distraída com tanta agitação, quando foi anunciada a vitória, Riquita não sabia o que fazia uma Miss. Pôs os olhos em Ana Maria Lucas e seguiu em frente para as objetivas na sala do cassino. A partir desse momento, iniciaram-se dois anos inesquecíveis na vida da filha única de um despachante oficial, bisneto de um pescador algarvio.
A conversa com Amália
Rodrigues
Se a chegada a Luanda tinha
sido estrondosa, o regresso a Moçâmedes reservou
outro tipo de surpresas. Riquita tinha desfilado no
Casino Estoril com o traje dos mucubais, uma tribo
nômade que se concentra sobretudo na zona Capangombe,
onde a família tinha uma fazenda. Pela proximidade
geográfica, muitos mucubais trabalhavam com os
Bauleth e foram eles que forneceram os panos,
ensinaram Riquita a envolver o corpo e emprestaram
os colares e pulseiras untados com esterco de boi.
«Fiz questão de usar os adereços originais e, de
cada vez que punha aquilo, toda a gente fugia com o
cheiro nauseabundo. Quando me mudava para o vestido
de noite tinha umas toalhas úmidas com que me
limpava do cheiro», conta. Não admira, por isso, que
os mucubais se tivessem sentido honrados.
Depois
de Lisboa viajou para Miami, nos Estados Unidos, onde
participou na eleição da Miss Universo. Riquita
apresentou-se com o traje tradicional dos mucubais e com
adereços emprestados por eles – untados com leite azedo
e excrementos de boi. “Havia quem se afastasse por causa
do cheiro.” Fosse como fosse, a festa tinha acabado.
“Era tudo muito profissional. Muito sério. Ensaios das
sete da manhã às sete da noite. Não era para mim.”
Desistiu.
Aqui mais algumas fotos.
Texto de Telma Miguel, Isabel Ramos Fotografias de Rui Ochôa, Revistas: Noticias 1971 Revistado Membro do Fórum: Teixeira Blogs: Xiconhoca, Gente do meu Tempo
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